Escuridão fundamental – Budismo

Escuridão fundamental – Budismo

“Escuridão fundamental” (gampon no mumyo, em japonês) é um princípio essencial do Budismo Nichiren. Também conhecido como “ignorância fundamental” ou “ignorância primordial”, é a ilusão mais profundamente arraigada na vida, a qual origina todas as demais ilusões. O termo “fundamental” (gampon) refere-se à real essência ou à verdadeira natureza da vida. E a “escuridão” (mumyo) é a incapacidade de enxergar ou de reconhecer essa natureza.

O Buda Nichiren Daishonin interpreta esse princípio como a ignorância da Lei suprema, ou a ignorância do fato de que nossa vida, em essência, é a manifestação da Lei, da natureza essencial dos fenômenos e da realidade, que é o Nam-myoho-rengue-kyo. Em outras palavras, essa “escuridão” indica a cegueira em relação à verdadeira natureza da própria vida. Portanto, é a ignorância do verdadeiro eu.

A escuridão fundamental da vida pode ser comparada ao breu da noite ou a uma espessa névoa que impede as pessoas de discernirem as formas e as cores. Quando ela se manifesta, age sorrateira e sutilmente torna a pessoa incapaz de enxergar e reconhecer a verdade ou a essência de tudo o que a cerca. Essa escuridão inata impede que a verdadeira natureza da vida seja reconhecida. As suas diversas manifestações, tais como a violência, a corrupção, o autoritarismo, a traição, a discriminação, entre outras, são igualmente obscuras e tenebrosas.

Uma pessoa tomada por esta escuridão, que não consegue enxergar a natureza da própria vida, passa a ignorar também outras pessoas. É por essa razão que atos bárbaros como a guerra continuam sendo praticados no mundo inteiro, tirando a vida de um grande número de pessoas, sempre sob justificativas diversas de ordem política, econômica ou ideológica, normalmente aceitas com naturalidade. Obviamente, à luz da verdadeira natureza da vida, não há nada que justifique esse grande mal perpetrado à humanidade.

Em contraste com a “escuridão fundamental”, existe o termo “natureza fundamental da iluminação” (gampon no hossho) que indica a percepção da verdadeira natureza da vida, isto é, da natureza de Buda inata na vida. Na prática, essa percepção corresponde à revolução humana individual, ou seja, a manifestação de nosso infinito potencial tendo como base a fé no Gohonzon.

Nichiren Daishonin, ao derrotar as maldades e suplantar as adversidades em sua vida, venceu a ilusão e a escuridão fundamental, manifestando a grandiosa condição de vida da Lei Mística, e representou esta magnânima condição de vida em forma de Gohonzon, ensinando-nos o caminho para atingir a iluminação nesta existência, edificando o verdadeiro eu.

É importante compreendermos que o que nos impede de manifestarmos a Lei Mística em nossa vida é a escuridão fundamental que reside em nós. Ela possui a grande força de causar o sofrimento e a infelicidade. O seu verdadeiro aspecto é a ignorância. Entretanto, esta ignorância pode ser rompida e vencida pela grandiosa sabedoria do Buda, que é o próprio Gohonzon. A fé no Gohonzon é a força capaz de romper essa escuridão. Dessa forma, o que combate essa ilusão é o poder da fé.

Quando nos conscientizamos de que somos a manifestação da própria Lei Mística, a ilusão ou escuridão se dissipa imediatamente. Analogamente, a Lei Mística é como o Sol, enquanto a escuridão é como as nuvens escuras que o cobrem. Quando as nuvens se dispersam, os raios brilhantes do Sol chegam sem impedimentos à Terra. Quando rompemos nossa escuridão fundamental, o poder da Lei Mística é ativado instantaneamente, e manifesta-se como diferentes funções criadoras de valor ou benefícios. Esses benefícios e valores diversos derivam do princípio da simultaneidade de causa e efeito.
Entretanto, apesar da certeza de que todos os seres vivos são entidades da Lei Mística, cuja vida é dotada intrinsecamente do estado de Buda, se não nos empenharmos em dissipar as nuvens da escuridão fundamental, o estado de Buda não se manifestará efetivamente em nossa vida. Esta condição não é algo que se atinge com uma atitude tímida e passiva, que se restringe a recitar Daimoku mecanicamente, e muito menos se algum sacerdote orar por nós.

Depende de cada pessoa recitar Daimoku e empreender uma luta individual para dissipar a escuridão de sua vida. Como ela se refere à ilusão interior, a batalha para vencê-la deve ser travada interiormente. Em poucas palavras, essa luta implica perseverar na fé.

O propósito principal da prática budista é “iluminar” a “escuridão” da vida, isto é, compreender as causas que geram o sofrimento e, assim, agir para mudar a própria condição ou situação. É elevar o nosso estado de vida, munindo-nos de coragem e sabedoria para mudar. Uma pessoa iluminada, ou no estado de Buda, é aquela que manifesta força, coragem, esperança, sabedoria e que se eleva acima das próprias dificuldades. Uma vez iluminada, ela ultrapassa e vence as dificuldades, enxergando melhor a essência da vida.

Na vida de todo ser humano, a cada instante, processa-se uma batalha entre a escuridão fundamental e a iluminação. Que lado vai vencer? Isso dependerá da condição de vida predominante da pessoa, os chamados Dez Mundos ou Dez Estados da Vida (Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranquilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodisatva e Buda).

Apesar de recitar Daimoku, se ficarmos presos às nossas próprias limitações, sem desafiá-las no momento crucial, seremos derrotados pela ilusão ou escuridão fundamental.

Budismo é vitória ou derrota. Conquistamos a verdadeira vitória na vida quando enfrentamos e vencemos nossos aspectos internos, quando vencemos nossa batalha interior.
No escrito “Sobre atingir o estado de Buda nesta existência”, Nichiren Daishonin nos ensina: “Quando uma pessoa é dominada pela ilusão, é chamada de mortal comum, mas quando iluminada, é chamada de Buda. Isso se assemelha a um espelho embaçado que brilhará como uma joia quando for polido. A mente que se encontra encoberta pela ilusão da escuridão inata da vida é como um espelho embaçado, mas quando for polida, é certo que se tornará como um espelho límpido, refletindo a natureza essencial dos fenômenos e da realidade. Manifeste uma profunda fé polindo seu espelho dia e noite. Como deve poli-lo? Não há outra forma senão devotar-se à recitação do Nam-myoho-rengue-kyo”.

Esta frase revela que todas as pessoas, assim como tudo no Universo, possui inerente tanto a escuridão como a iluminação. Em outras palavras, a “verdadeira natureza da vida” pode manifestar tanto a “iluminação” pela percepção da sua natureza de Buda como a “escuridão” quando dominada pela ilusão. De acordo com o sutra Shrimala, a escuridão fundamental é a ilusão mais difícil de ser vencida e só pode ser erradicada por meio da sabedoria do Buda. Esse é o significado da frase final deste escrito de Daishonin: “Manifeste uma profunda fé polindo seu espelho dia e noite. Como deve poli-lo? Não há outra forma senão devotar-se à recitação do Nam-myoho-rengue-kyo”.

Em um de seus discursos, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, comenta: “O mundo atual carece intensamente de esperança, de uma perspectiva positiva pelo futuro e de uma sólida filosofia. Não há nenhuma luz brilhante a iluminar o horizonte. Tudo está num impasse — a economia, a política e as questões ambientais e humanitárias. E os próprios seres humanos — a força motriz de todas essas esferas — também estão perdidos e não sabem como avançar. É por isso que nós, os Bodisatvas da Terra, aparecemos. É por isso que o Budismo do Sol de Nichiren Daishonin é tão essencial. Levantemo-nos, segurando bem alto a tocha da coragem e a filosofia da verdade e da justiça. Nós começamos a agir para romper corajosamente a escuridão dos quatro sofrimentos do nascimento, da velhice, da doença e da morte, e também a escuridão da sociedade e do mundo”.

Em outro escrito de Daishonin, consta: “Se acender uma lamparina para uma outra pessoa, iluminará também o seu próprio caminho”. Todos são pessoas valorosas. Daishonin ressalta que respeitar os outros, constitui a base da prática do Sutra de Lótus, e que realizar o Shakubuku é conduzir a prática desse bodhisattva. Quando nos empenhamos de corpo e alma a encorajar as pessoas, convictos de que cada uma delas possui uma missão preciosa, somos capazes de revelar o potencial não só dessas pessoas, mas o nosso também.

Realizar o Shakubuku, que tem como finalidade conduzir as pessoas à iluminação com base na filosofia e no espírito benevolente do Sutra de Lótus, é a prática budista do mais elevado respeito à vida. É a prática correta para dissipar tanto a escuridão fundamental que se aloja na vida das pessoas como na de nossa própria vida.

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