Impacto das epidemias na história da humanidade: uma breve reflexão

Impacto das epidemias na história da humanidade: uma breve reflexão

Vivemos um momento de grande tensão nos dias atuais na eminência de uma epidemia. As informações e notícias sobre a evolução da epidemia invadem as redes sociais e os noticiários de todas os meios de comunicação.

Exacerba-se o temor, a sensação de finitude, a insegurança existencial e o medo do amanhã. Mas, toda esta angústia se justifica? Afinal, ao longo de milênios enfrentamos epidemias em situação bem menos favorável e chegamos até aqui. Ou seja, superamos a peste, a cólera, a varíola, a poliomielite etc., em momentos históricos onde não dispúnhamos de praticamente recurso algum para tratar essas doenças.




A humanidade vem sobrevivendo a despeito da ignorância, agressividade e espirito animalesco que permeia muitas de nossas condutas. Guerras são o fruto da epidemia da insensatez, que dizima mais que vírus e bactéria.

Este é o assunto desta semana. O que de positivo aprendemos com as epidemias ao longo da história da humanidade. Como as epidemias influenciaram hábitos e mudaram padrões de comportamento. Enfim, o que os vírus e bactérias nos ensinaram ao longo de nossa evolução?

As doenças infecciosas condicionaram a existência humana de várias maneiras. Seja dizimando populações, promovendo êxodos, propiciando miscigenação, fortalecendo ou enfraquecendo povos, as doenças infecciosas implacavelmente influenciaram o destino da humanidade.



Assim como a humanidade, as doenças infecciosas nasceram na África. Fugindo de doenças, intempéries e guerras, o homem saiu da África em direção a Europa, Ásia e demais continentes.

A criação de cidades facilitou a transmissão das doenças infecciosas, criando também as epidemias. Grandes aglomerações, guerras e desastres naturais precedem geralmente grandes epidemias. O progresso da humanidade, de certa forma, facilitou a disseminação das doenças.

Estamos hoje reescrevendo a história da humanidade utilizando conhecimentos oriundos da arqueologia, aliados a técnicas de biologia molecular que nos ajudam a identificar a relação das doenças infecciosas à história da humanidade.




O resgate de microrganismos que infectaram animais ancestrais ajuda a esclarecer nossa existência e nos preparar para o futuro. Podemos entender doenças que cometeram desde hominídeos até o homem moderno.

Os microrganismos identificados em sítios arqueológicos mostram nossa rota migratória pelo planeta e o caos instaurado por eles em determinados momentos da história.

Mas, quem são os verdadeiros responsáveis por estas epidemias? Os vírus? Os fungos? As bactérias? Os desastres naturais? As guerras? O modelo econômico? O porco, o frango, o rato, o piolho? ou o próprio homem e suas decisões?

Pois bem, o que estes microrganismos causadores de grandes epidemias nos deixaram de legado, se é que podemos chamar de legado?




Comecemos pelo vírus da Varíola, que causou epidemias no século 16 ao século 18. As populações indígenas das Américas foram devastadas por epidemias tanto de varíola, quanto pelo sarampo, quanto pelo vírus da Influenza. Trazidas pelos colonizadores europeus, devastou as populações indígenas das Américas.

Entretanto a varíola foi uma das primeiras doenças infecciosas erradicadas pela tecnologia humana, possivelmente a poliomielite e o sarampo também serão nas próximas décadas. A varíola, que atualmente encontra-se erradicada do planeta, teve o início do seu controle a partir dos trabalhos realizados pelo médico e pesquisador Inglês Edward Jenner ainda no século 18.

Jenner inoculou o vírus da varíola bovina em seres humanos, repetindo prática que aprendera na Ásia. Vista inicialmente com ceticismo na Inglaterra, esse procedimento passou a ser praticado em toda Europa, sendo fundamental para o controle dessa doença nos dias atuais.




Aprendemos aqui, a importância do intercâmbio de informações e de ousarmos cientificamente. A epidemia de varíola e o seu subsequente controle evidenciou a nossa capacidade de superar as doenças infecciosas, por mais catastróficas que elas sejam.

Da mesma forma, as epidemias de Gripe de 1918 (Gripe Espanhola), 1957 (Gripe Asiática) e de 1968 (Gripe de Hong Kong), causaram mais 750 mil óbitos.
Para combater essas epidemias, foram desenvolvidas vacinas, antivirais e programas especiais de prevenção pelos governos de todo o mundo. Apesar de todo o conhecimento acumulado ao longo de quase um século e de toda tecnologia disponível, o vírus da Influenza ainda se associa a cerca de 2 milhões de óbitos por ano em todo o mundo.

O que aprendemos com essa epidemia?! Não basta termos vacinas e medicamentos, se estes não chegam para todos, particularmente para as populações mais vulneráveis.

Outra epidemia viral com a qual estamos convivendo nos dias atuais é a Aids. Apesar de dispormos de métodos diagnósticos, prevenção e tratamento altamente eficazes, milhares de pessoas ainda se infectam e morrem todos os anos por essa doença surgida na década de 80 do século passado.




Aprendemos em todos os sentidos com a Aids. Quebramos tabus e passamos a lidar de forma mais honesta com as diferentes opções sexuais. As pesquisas científicas em busca de medicamentos para tratamento do vírus da Aids nos deram drogas fantásticas para o tratamento da Hepatite C, para a qual temos hoje cura em mais de 95% dos casos.

Descobrimos que os ancestrais do vírus da Aids, retrovírus primitivos incrustados em nosso DNA são responsáveis pela fixação do óvulo no útero e impedem que o sistema imunológico feminino rejeite o embrião. Ou seja, curiosamente, devemos a nossa existência a parentes distantes do vírus da Aids.

Outra epidemia que teve profunda influência na história da humanidade, foi a epidemia de infecção fúngica que acometeu os dinossauros, milhares de anos antes da nossa existência na superfície terrestre.



Estudos de paleato-patologia mostram que as alterações climáticas provocadas pela queda do asteroide na Península de Yucatán, no México, favoreceu o crescimento e a proliferação de fungos os quais foram responsáveis pela infecção generalizada de dinossauros extinguindo-os da face do planeta. Portanto, herdamos o planeta às custas da infecção fúngica em dinossauros. Além do do vinho, do pão e da cerveja herdamos o planeta a partir da epidemia fúngica sobre sobre os quais não conseguiríamos conviver na superfície do planeta.

Mais recentemente, no século 14, a peste, doença que dizimou cerca de um terço da população mundial, foi responsável por profundas transformações culturais, religiosas e econômicas, resultando num momento histórico fundamental para a nossa história conhecido como Renascimento. Os desígnios divinos foram sendo questionados e paulatinamente substituídos pelo livre arbítrio. Ou seja, o conceito de que podemos mudar o nosso destino a partir de ações efetivas foi profundamente influenciado por uma devastadora epidemia.




Assim como a peste, a cólera foi impiedosa com a humanidade. Entretanto, os estudos do epidemiologista John Snow na Inglaterra no século 19 mostraram que as péssimas condições sanitárias eram responsáveis pelo problema. Infelizmente, o conhecimento se transforma em prática de forma lenta, principalmente quando dependem de políticas públicas. Até hoje, mais da metade da população mundial ainda vive em condições propícias a epidemias relacionadas a deficiências sanitárias elementares.

Virus, bactérias, fungos e outros microrganismos responsáveis pelo nosso sofrimento e angústia servem para nos acordar de nossa alienação existencial. Somos responsáveis pelo nosso destino. Prestar atenção no que é fundamental, prevenir e educar em tempos de calmaria, se é que é esses momentos existam, nos tornam mais preparados para enfrentar a dura e prazeirosa missão de existir.




Virus, fungos, bactérias e outros microrganismos nos ensinam a duras penas, sermos mais solidários e humanos.

Enfrentemos pois, mais esta epidemia, que não será a última, com dignidade e a certeza que sairemos dela com perdas, mas ganhos e ensinamentos importantes que nos tornaram mais aptos a sobrevivência em tempos futuros.

Evoluir e mudar, este é o papel dos vírus na natureza. Eles não são nossos inimigos, mas professores…

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