Meio secreto e místico

Meio secreto e místico

Este é um revolucionário conceito budista elucidado no Sutra do Lótus, pelo qual podemos aprofundar a convicção de que quaisquer circunstâncias, cada acontecimento ou situa­ção, possuem significado de revolução humana ou seja, revelar o estado de Buda inerente à vida humana.
Mas, para a compreensão do conceito de “meio secreto e místico” do Sutra do Lótus, primeiramente faz-se necessário o entendimento de “meios” descritos nos ensinos pré-Sutra do Lótus.

Hoben ou “meios” é uma forma ou um conselho que o Buda, por benevolência, emprega para ajudar as pessoas a atingir a iluminação. Desde o início, o propósito fundamental de Shakyamuni era possibilitar a todas as pessoas atingir a iluminação, mas ele não revelou isso nos sutras provisórios. Ele o faz pela primeira vez no Sutra do Lótus.

Os sutras provisórios expõem diversos ensinos para possibilitar as pessoas romperem com seus vários apegos. As pessoas diferem em função do tipo de apego ou “restrição” que possuem. Portanto, Shakyamuni expôs uma variedade de ensinos empregando várias parábolas sobre relações causais adequadas à condição de cada pessoa.

Todos esses ensinos não passavam de “meios” para conduzir as pessoas à “finalidade” de atingir o estado de Buda. Nesse sentido, os ensinos pré-Sutra do Lótus são considerados meios.

Shakyamuni dedicou-se a corresponder à capacidade específica de cada pessoa, selecionou ensinos que se adequassem precisamente às suas necessidades e satisfez cada pessoa. Ele realizou, portanto, uma luta de benevolência e sabedoria. Sua preocupação era que, caso uma pessoa não compreendesse a verdade, acabaria por caluniá-la e mergulhar ainda mais na escuridão da ignorância.

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“O que esta pessoa está buscando?”, “Como devo instruir esta pessoa a assegurar que não se desvie do caminho correto?”. Ele considerou profundamente o caso de cada pessoa, orientando-a sempre com um sincero espírito de completa devoção.

Embora falemos genericamente de “pessoas”, não se trata de uma multidão abstrata ou indeterminada. Na verdade, refere-se particularmente a cada uma dessas pessoas. “Como posso revigorá-las?”, esse é o espírito do budismo. Quando falamos para um grande número de pessoas, só conseguiremos ofertar “palavras estimuladoras” que reverberem em seu coração se tivermos a atitude de nos dirigir a cada uma delas.

Em outras palavras, os meios surgiram do desejo do Buda de ajudar as pessoas, e essa benevolência deu surgimento à sabedoria.

Conforme já mencionado, os “meios” aos quais esta passagem se refere são expedientes dos ensinos pré-Sutra do Lótus. Eles não devem ser confundidos com os meios indicados pelo título do segundo capítulo do Sutra do Lótus. Um profundo significado está ligado aos meios do Sutra do Lótus.

Tient’ai identifica três tipos de meios (san hoben, em japonês): “meios adaptáveis”, “meio para o portal da verdade” e “meios místicos e secretos”. Os dois primeiros correspondem aos meios dos ensinos pré-Sutra do Lótus. Os meios místicos e secretos correspondem aos meios do Sutra do Lótus, os meios do capítulo “Hoben”.

Os meios adaptáveis (hoyu hoben) correspondem aos vários ensinos expostos de acordo com a capacidade das pessoas. Com a adaptação (yu) desses ensinos (ho), Shakyamuni beneficiou pessoas de capacidade diversas.

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Os meios do portal da verdade (notsu hoben) são ensinos que representam o portal de acesso à verdade. “Notsu” significa seguir esses ensinos, porque por intermédio deles as pessoas são conduzidas à verdade.

Esses meios dos ensinos pré-Sutra do Lótus servem para guiar as pessoas à sabedoria do Buda: são “meios” para direcioná-las a chegar ao Sutra do Lótus. E conforme Shakyamuni revela quando diz “descartando realmente os meios” (LS2,44.), os expedientes dos ensinos pré-Sutra do Lótus devem ser descartados uma vez que o Sutra do Lótus foi exposto.

Os ensinos anteriores ao Sutra do Lótus eram meios para guiar as pessoas à sabedoria do Buda. Por serem “meios” para direcioná-las a chegar ao Sutra do Lótus, esses ensinos devem ser descartados uma vez que o Sutra do Lótus foi exposto. Em contraste, os meios do Sutra do Lótus não são um expediente que deva ser descartado; é o ensino da verdade. Ao mesmo tempo, ele ainda é apenas um expediente. Embora o segundo capítulo esclareça a verdade, ele não é intitulado “verdade”, mas, sim, “meios”. Aqui reside o profundo significado dos meios secretos e místicos. (himyo hoben).

Na introdução do capítulo “Hoben”, aprendemos que a sabedoria dos budas é infinitamente profunda e imensurável, difícil para os homens de erudição e de absorção compreenderem-na. É um ensino supremo, difícil de ser exposto em palavras.

medo

Contudo, a menos que a sabedoria dos budas seja expressa, todas as pessoas permanecerão eternamente presas a escuridão. Por essa razão, o Buda ousou expor essa sabedoria em palavras.

Como a verdade é inexprimível, as palavras que o Buda usa para expor a sabedoria são um meio. Ao mesmo tempo, é um fato que por intermédio dessas palavras as pessoas podem ser salvas. Então, as palavras como meio se tornam a própria verdade. Por isso, apesar de ser um meio, o meio secreto e místico não pode ser descartado, pois isso significaria descartar a própria verdade.
Assim sendo, pode-se dizer que os meios dos ensinos pré-Sutra do Lótus e os do Sutra do Lótus são de sentido totalmente opostos. O termo japonês Hoben (meios) deriva originalmente da palavra sânscrita upaya e significa “aproximar”. Os ensinos pré-Sutra do Lótus são meios utilizados de acordo com a capacidade de compreensão das pessoas que as possibilitam afastarem-se da ilusão e aproximar da iluminação. Em outras palavras, essa é a direção para a sabedoria dos budas nos meios adaptáveis e nos meios do portal da verdade. Esses meios não são mais de serventia uma vez que chegamos ao ensino do Sutra do Lótus.

No Sutra do Lótus, em contraste, Shakyamuni esclarece e articula para as pessoas a verdade da sabedoria dos budas como ela realmente é. O sentido desse meio é fazer com que o mundo dos seres humanos se aproxime do Buda. Esse é o meio secreto e místico.

Perante a verdade do Sutra do Lótus, os ensinos pré-Sutra do Lótus são focalizados como expressões parciais da verdade. Isso é chamado de Kaie (revelação). Enquanto que o meio secreto e místico é a própria verdade do Sutra do Lótus.

Comprovando o poder místico da vida no mundo real, a sabedoria dos budas revelada no capítulo “Hoben” é a “essência real de todos os fenômenos”. Em outras palavras, é a verdade de que todos os seres vivos são budas.

Essa verdade (de que todos os seres vivos são budas) era conhecida somente pelos budas. Esse é o significado de “secreto” do termo “meio secreto e místico”. É “mística” porque é difícil para as pessoas compreenderem essa verdade. O ensino que desperta as pessoas para essa verdade é o meio secreto e místico.

Ações invisíveis

O meio secreto e místico é exemplificado na “Parábola da Pedra Preciosa Escondida no Manto”, narrada em “Profecia da Iluminação para Quinhentos Discípulos”, o oitavo capítulo do Sutra do Lótus. Essa parábola narra sobre um homem que, ao visitar seu amigo, é recebido com várias garrafas de vinho. Ele se embriaga e cai adormecido. O amigo, tendo de sair com urgência, costura antes uma gema de valor incalculável no forro da roupa do visitante.
O visitante, ao acordar, não encontra o amigo e, não percebendo que possuía a gema, vaga pelo mundo passando por dificuldades, vivendo sempre na penúria. Tempos mais tarde, ele reencontra o amigo, e só então descobre que durante todo aquele período tivera em seu poder uma gema inestimável.
O amigo (o Buda) sabia que o outro possuía a gema em sua roupa (o mundo do estado de Buda em sua vida), embora o visitante (os seres dos nove mundos) não compreendesse isso.

Um ser humano comum é um buda. Isso é difícil de compreender. Se não acreditarmos que possuímos a natureza de Buda, ela permanecerá eternamente “secreta”. Porém, uma vez que a reconhecemos, ela deixa de ser “secreta” e nossos poderes “místicos” evidenciam-se.
O segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, disse certa vez: “O fato de sermos mortais comuns, seres não-iluminados, é o meio secreto e místico. A verdade é que somos budas”. Perceber essa verdade é compreender o meio secreto e místico.

Embora sejamos budas, nascemos como mortais comuns. Isso quer dizer que, por meio de nossa revolução humana e mostrando a prova real da Lei Mística, podemos realizar o Kosen-rufu. Se desde o início tivéssemos tudo, boa saúde e riquezas, então as outras pessoas não compreenderiam o poder da Lei Mística. Dessa forma, tentamos revelar a Lei para essas pessoas por meio de nosso empenho como mortais comuns. Esse é o meio secreto e místico.
Ou seja, todos nós que acreditamos no Gohonzon, o Sutra do Lótus dos Últimos Dias da Lei, e que estamos lutando em meio à realidade do nove mundos, exemplificamos o meio secreto e místico.

Enquanto vivermos sempre com base no Gohonzon, todos e quaisquer sofrimentos tornam-se meios para fortalecermos e consolidarmos o mundo do estado de Buda em nossa própria vida. Os sofrimentos e as alegrias e tudo o que nos ocorre são os meios para revelarmos o poder da Lei Mística.

A palavra “místico” indica a natureza maravilhosa e insondável da própria vida. Em outras palavras, os nove estados são todas as entidades do estado de Buda. Esse é o princípio de que “os nove estados têm o potencial para o estado de Buda”. E quando se compreende essa verdade, torna-se aparente que o estado de Buda não se manifesta em algum lugar distante dos nove estados dos seres vivos. Ele aparece dentro dos nove estados. Esse é o princípio de que o “estado de Buda contém todos os nove estados”.

Se considerarmos nosso objetivo de atingir o estado de Buda como “verdade”, e os nove estados como “meios”, então os meios são idênticos à verdade (os nove estados têm o potencial para o estado de Buda), enquanto a verdade é idêntica aos meios (o estado de Buda contém os nove estados). Esse é o significado de meio secreto e místico.

Por exemplo, após ter abraçado a fé no Gohonzon, os sofrimentos dos nove estados não são mais simples sofrimento. Eles se tornam sofrimentos que revigoram a fé e fortalecem o estado de Buda que está dentro da própria vida; tornam-se sofrimentos nos termos do meio secreto e místico, ou seja, triunfando sobre eles pode-se demonstrar aos outros a prova do próprio estado de Buda. O sofrimento torna-se um tipo de estímulo — como um amplificador estimulando a um maior crescimento e realização espirituais.

Vamos considerar o exemplo de uma pessoa que, antes de começar a praticar o Budismo Nichiren, sofria com vários problemas. Em conseqüência, essa pessoa provavelmente devia estar no estado de Inferno. No entanto, esse problema serviu como uma motivação para que essa pessoa abraçasse o Gohonzon. Nesse exemplo, o estado de Inferno é imediatamente transformado em estado de Buda — e o problema serviu como um meio do ensino funcional ou um meio do portal da verdade para essa pessoa em questão. Dentre esses dois, inclinamos a dizer que foi o meio do portal da verdade.

Porém, mesmo após termos abraçado a fé no Budismo Nichiren, continuamos a passar por vários problemas e sofrimentos. Às vezes, podemos entrar num beco sem saída, incapazes de ultrapassá-lo. Mas, devido a nossa prática budista, qualquer problema que encontrarmos serve como uma oportunidade para demonstrarmos a prova real da fé. Vemos aqui o meio secreto e místico em ação.
Especialmente os problemas ou dificuldades que encontramos durante nossos esforços em prol do Kosen-rufu exemplificam os princípios de que “o estado de Inferno contém o estado de Bodhisattva” e “o estado de Buda contém o estado de Inferno”. Nenhum problema ou dificuldade poderia ser mais nobre do que isso. Quanto mais desafiamos e triunfamos sobre os problemas, mais forte torna-se dentro de nós o estado de Buda. Nesse sentido, se nossa fé for forte, os fatores negativos são imediatamente transformados em fatores positivos e os resultados adversos são transformados em mérito. Para uma pessoa de fé, tudo o que acontece na vida torna-se benefício.

Quaisquer que sejam nossas circunstâncias atuais, cada acontecimento é uma cena vital no drama de nossa existência atual neste mundo — o drama de atingir o estado de Buda, que é sinônimo de revolução humana. Tudo é um meio (os nove estados) para revelar a verdade (o estado de Buda). Essa é a função do meio secreto e místico.

Daishonin escreveu: Sofra o que tiver de sofrer. Desfrute o que existe para ser desfrutado. Considere tanto o sofrimento como a alegria como fatos da vida e continue orando Nam-myoho-rengue-kyo não obstante o que aconteça. Então, experimentará a infinita alegria da Lei”.

O sofrimento e a alegria são meios dos nove estados. Recitar o Nam-myoho-rengue-kyo é estar no mundo do estado de Buda, o mundo da verdadeira sabedoria do Buda.

Do vasto e elevado estado de vida que atingimos com nossa prática budista, olhamos serenamente para todos os sofrimentos e alegrias e, ao mesmo tempo, experimentamos a alegria da Lei Mística. É isso o que significa ler com todo o ser o capítulo “Meios” do Sutra do Lótus.

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